O DIA MALDITO (OU SERIA BENDITO?)
Não sei se bendigo ou maldigo o distante dia 1º de setembro de 1981. Para quem não sabe (e é lógico que ninguém sabe, além de mim), foi quando, pela primeira vez, um dono de jornal resolveu apostar em mim e assinou a minha, hoje surrada, carteira profissional. Tá lá, se alguém duvidar, meu nome e o cargo de repórter, com um salário (miserável na época) de 8.480,00 cruzeiros. Isso equivalia exatamente ao salário mínimo vigente no então Brasil do general João Baptista Figueiredo, 30º presidente da República (logicamente, não eleito). Assim, adentrava eu na redação do Jornal Diário Serrano de Cruz Alta, lá no pampa gaúcho.
E aqui estou eu, 40 anos depois, na dúvida se bendigo ou maldigo esse dia. O que eu sei é que, como naquela manhã fatídica, estou pobre, meio ‘esgualepado’, mas com mil histórias pra contar e uma bagagem de conhecimentos e sabedorias que vou levar comigo para o túmulo raso.
Fico aqui pensando se deveria ter fugido no primeiro dia de trabalho. Fui, talvez, burro demais para me deixar encantar com aquele mundo que me foi apresentado por dois amigos, o quais já estavam nessa lide.
Fazendo uma reminiscência do que era o jornalismo há 40 anos, acho a maior graça quando vejo um guri ou uma guria saindo da faculdade e dizendo: “Finalmente sou um(a) jornalista!” Não, meu amiguinho ou amiguinha! Se você não escreveu uma nota de aniversário ou um obituário (era o que se fazia no início de carreira) numa ruidosa Remington caindo aos pedaços, você não é um(a) jornalista.
Te afirmo, amiguinho ou amiguinha (me recuso a usar a tal linguagem neutra), se você é capaz de fazer um jornal diário sem Word, sem Google, sem Whatsapp, sem máquina digital, sem Corel Draw, sem Adobe InDesign e sem “chupar” uma matéria do Globo.com, aí você pode bater no peito e dizer orgulhoso: “Sim, eu sou um(a) jornalista!” (ou seria jornaliste?). Pois saibam que, na época, nossas ferramentas de trabalho eram uma máquina de escrever, uma lauda (aposto que você não sabe o que é), um gravador de fita K-7, folhas de rascunho e uma caneta. Mas passado é passado. Eu louvo a chegada da Informática e da tecnologia digital ao jornalismo impresso, apesar de ter empobrecido intelectualmente parte da nova geração.
Mas sabe o que tirou um pouco a graça do jornalismo impresso de hoje? A falta das memoráveis mancadas, ou, como se chamava antigamente, as barrigadas. Eram aqueles erros crassos que se cometia e que só se via quando a edição já estava impressa e distribuída. E aí, dá-lhe pau no revisor e xingamentos do patrão ao autor da “cagada”. O que mais imperava era a famosa troca de fotos ou legendas.
De pelo menos duas “barrigadas” homéricas eu nunca esqueci nesses 40 anos. A primeira aconteceu lá mesmo em Cruz Alta, quando um famoso professor (não me lembro do que) veio à cidade proferir uma palestra, devidamente coberta com fotos pelo jornal. No mesmo dia, acontecia também uma exposição de cães de raça, que igualmente foi acompanhada por um repórter e um fotógrafo.
Tudo teria acabado em uma bela edição do jornal se o Diabo não morasse nos detalhes. Na matéria do professor palestrante (que era barbudo e meio cabeludo) foi estampada a foto de um lindo cachorro pastor alemão, legendada com o nome do professor e sua especialidade. Já a reportagem sobre a exposição de cães, só podia estar ilustrada com a foto do professor barbudo, né? E o repórter/redator caprichou na legenda: “Este belo espécime de pastor alemão foi uma das atrações da exposição”. Não é preciso dizer que houve demissões.
A outra “cagada” hilária foi registrada aqui mesmo na nossa São Miguel do Oeste. Não sei porquê cargas d’água o jornal tinha um repórter/redator, chamado de Jamerico, que ficava responsável por elaborar as legendas das fotos. Outro repórter redigiu uma matéria, encaminhou o texto e a foto para a diagramação com o recado: “pegar legenda com o Jamerico cabeça de tico”. Pois não é que a brincadeira inocente foi parar embaixo da foto? Imagine a reação do leitor do jornal no dia seguinte ao ler a misteriosa legenda.
Por essas e outras centenas de deliciosas (às vezes trágicas) histórias em 40 anos que passei em redações, é que decidi bendizer aquele longínquo 1º de setembro de 1981.

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